A EXPANSÃO PARA O SUL:

VEREDA DAS MISSÕES E O PAPEL DE ATANAGILDO PINTO MARTINS

A EXPANSÃO PARA O SUL

(1816 a meados do século XIX)

Roselys Vellozo Roderjan

A rivalidade entre as Coroas portuguesa e espanhola, oca­sionou as lutas iniciadas em fins do século XVII na região pla­tina da América do Sul, envolvendo populações brasileiras, re­crutadas para a defesa das posses portuguesas. Essas lutas pros­seguiram no século XIX, quando os países desmembrados dessas Co­roas, procuravam cada qual definir suas fronteiras.

 

0 posicionamento do marquês de Pombal e do morgado de Ma­teus, na segunda metade do século XVIII, é assumido em 1809 pelo conde de Linhares, ministro de dom João VI. A eles sempre inte­ressou o domínio e defesa das fronteiras que confinavam com as posses espanholas, pelo oeste da Capitania de São Paulo. A "Real Expedição da Conquista dos Campos de Guarapuava", projeto de Linhares, ocupou em 1810 esses campos, sob o comando do tenente-coronel Diogo Pinto de Azevedo Portugal.

 

Ficara, porém, sem solução, uma das principais finalida­des da Real Expedição; a abertura de um novo caminho para as Mis­sões, principal objetivo da ocupação daqueles campos. Aos inte­resses estratégicos da Coroa portuguesa pela posse das frontei­ras do oeste, somam-se os econômicos, representados pelo comér­cio do tropeirismo. Realizou-se em 1816 uma expedição comandada por Atanagildo Pinto Martins, paranaense nascido em Castro, al­feres da Cavalaria de Curitiba, o que constituiu o episódio da "vereda das Missões". Seus principais resultados foram aberta da região dos Campos Novos, em Santa Catarina e o reconhe­cimento oficial da Estrada das Missões, que dos Campos de Vaca­ria, no Rio Grande do Sul, dirigia-se para o oeste, atingindo as Missões (1).

 

Por essas regiões o tropeirismo abriu novas rotas, sendo a passagem do alferes Atanagildo e sua escolta pelo "caminho das Missões", um dos marcos do povoamento do Planalto Médio do Rio Grande do Sul (2). Por ele, mais tarde, teriam Atanagildo Pinto Mar­tins e seus irmãos e parentes atingido os campos de "cima da ser­ra". Aí estabeleceram suas estâncias, nas terceira e quarta dé­cadas do século XIX, colaborando na formação das primeiras vilas do Planalto Médio, participando na sua governança e constituindo numerosas famílias. Outros povoadores e tropeiros, deslocados dos planaltos paranaenses e dos campos paulistas, espalharam-se pela região serrana e pararam nos "... belos campos da fronteirara...", que já estavam apropriados pelos conquistadores "...vin­dos do foco de Porto Alegre"(3).

 

Ainda ao tempo da Real Expedição, no final de 1819, o estabelecimento da freguesia de "Nossa Senhora de Belém" nos cam­pos de Guarapuava (4), proporcionou o povoamento dessa região por naturais dos planaltos paranaenses, genericamente chamados de "curitibanos".


A ocupação dos Campos de Palmas por moradores de Guara­puava e de outras vilas paranaenses, realizada de 1839 em dian­te, marca o limite da expansão do território do Paranã, para o sul. Entre 1844 e 1845, o alferes Francisco da Rocha Loures, nas­cido em são José dos Pinhais (PR) e morador de Guarapuava, con­segue chegar aos Campos de Nonoai, no Rio Grande do Sul, atra­vessando o Passo do Goio-En, no rio Uruguai. 'Fora finalmente aberto o caminho para as Missões que se transformou na nova Es­trada das Missões no governo da recém-criada Província do Para­nã, que conseguira sua emancipação política de São Paulo, em 19 de dezembro de 1853. Essa estrada foi a última rota para o sul, do ciclo do tropeirismo, proporcionando elevados lucros para esse comércio na segunda metade do século XIX.

 

No rastro das estradas do tropeirismo6 pode-se acompanhara expansão das populações dos planaltos paranaenses para o sul. Pela antiga Estrada das Missões haviam alcançado os Campos de Cima da Serra e por eles o Planalto Médio do Rio Grande do Sul, onde participaram da fundação das suas primeiras comunidades cam­peiras. Pela nova Estrada das Missões se estendem para o atual oeste catarinense e para as regiões do Alto-Uruguai, no Rio Grande do Sul. Aqui atuaram no desbravamento dos Campos de Nonoai e na fundação e povoamento de Palmeira das Missões.

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FIGURA 15 - CAMINHOS DE TROPAS DO BRASIL MERIDIONAL(séculos XVIII e XI>Fontes: BALHANA, Pillati; MACHADO, Pinheiro; WESTPHALEN. Histó­ria do Paraná. Curitiba, Grafipar, 1969. v. l, p.96SUDESUL. Vegetação Natural da Região Sul, 1978. (Imagem Landsat)

Adaptação: R.V. Roderjan Desenho: C. V.Roderjan

1. A Vereda das Missões e Atanagildo Pinto Martins

 

A expedição comandada pelo alferes Atanagildo Pinto Mar­tins em 1816, que saindo dos Campos de Guarapuava, no Paraná, atingiu São Borja das Missões,, no Rio Grande do Sul, segundo Loi­va FELIX, inicia a segunda fase do povoamento do Planalto Médio, do "bandeirantismo p a s t o r i l " (7).  Essa expedição é portanto, um mar­co para a história social e econômica dessa região serrana. Ela constituem o episódio da abertura da "vereda das Missões", citado por autores paranaenses.8  A exploração foi realizada numa área que atinge os três estados sulinos, interessando o seu estudo também ao Estado de Santa Catarina.

 

O alferes Atanagildo Pinto Martins, no início de janeiro de 1816, recebeu uma Ordem datada de 10 de janeiro, do comandan­te Diogo Pinto de Azevedo Portugal, para que prosseguisse na in­cumbência da abertura do novo caminho para as Missões. Nessa Or­dem Diogo Pinto revela sua satisfação por ter recebido o roteiro da explora­ção que Atanagildo fizera do rio Chapecó onde se achava incapacitado (9).  A seguir Atanagildo deu início à jornada, chefiando uma pequena escolta, chegando três meses após, no Povo de São Borja. (10).

Nessa Ordem Diogo Pinto estabeleceu para Atanagildo um mi­nucioso plano de ação, exposto em seis itens:

 

1. Seguir com a incumbência ("deligência") até entrar no primeiro povo das Missões que encontrar,

 

2. Apresentar ao oficial que estiver no comando, a Portaria do conde de Palma, a qual remete por cópia.

 

3. Pedir a ele o que necessita para o retorno, esclarecen­do que qualquer despesa fica por conta dos cofres da Real Expe­dição e expor as vantagens de ura roteiro novo, para o comércio do continente do Sul.

 

4.. Escrever ao marquês de Alegrete contando os resultados da expedição e participar o seu regresso a Atalaia, conforme or­dem da Junta.

 

5. Fazer uma "exata informação" de tudo o que for necessá­rio informar, pois esses resultados poderão decidir a sorte da Conquista.

 

6. Lembrar que essa missão pode trazer grande glória e o"crédito na Real presença", para Atanagildo e sua escolta.

 

A referida Ordem de Diogo Pinto, Atanagildo entregou a Fran­cisco das Chagas Santos, comandante do quartel de São Borja das Missões, quando aí se apresentou a 17 de abril de 1316,junto coma cópia da Portaria de 18 de agosto de 1815 da Junta da Real Expedição, que o conde de Palma enviara a Diogo Pinto (11).

Os quatro primeiros Itens da Ordem do comandante Diogo Pin­to, Atanagildo cumpriu com exatidão, o que ê possível verificar na comunicação que o comandante de São Borja enviou ao marquês de Alegrete, então governador do Rio Grande, do Sul.

 

Porém o quinto Item, não teve da Junta a esperada aprovação, a qual acusou "friamente" o recebimento da "participação e do rotei-12ro" do alferes Atanagildo Pinto Martins, a 9 de julho de 1816 (12) ;não foi encontrado, esse relatório de Atanagildo e perdeu-se o seu roteiro. Dal tantas indagações até hoje sem resposta, espe­rando a pesquisa em documentos inéditos e novos estudos, para a sua elucidação., Mas foi situado o relatório que ele enviou ao marquês de Alegrete, já no seu retorno, escrito do povo de São Luiz e datado de 27 de abril de 1816., Esse relatório é de grande pobreza de detalhes, apesar de ter Diogo Pinto lhe ordenado uma "exata informação". É possível que o relatório que o alferes enviou para a Junta, também tenha sido pouco satisfa­tório.

 

É a seguinte a redação do relatório de Atanagildo Pinto Mar­tins:

Ilmo. e Exmo Sr.

A Junta da Real Expedição e Conquista de Guarapuava, em consequência da Carta Régia do 1º de abril de 1809 mandou pela ordem de 17 de agosto do ano próximo passado, que o Tenente-Coronel  Diogo Pinto de Azevedo Portugal Comandante da mesma Expedição viesse pessoalmente explorar abertura de uma estrada, que de­ve fazer a comunicação da Capitânia de São Paulo com esta, pelos fundos  dos campos dita Conquista, a sair em a Província  de Missões e pondo em execução o dito Tenente-Coronel Comandante a respeitável ordem ordenou-me seguisse no dia 28 de novembro do mesmo ano enquanto arranchava e dava providências a algumas coisas que a ausência do mesmo Comandante para a capital onde foi chamado, se haviam deteriorado, aconteceu que em dias de dezembro ser o dito comandante atacado de uma moléstia que o pôs de cama mortalmente me mandou ordem prosseguisse o destino da diligência em data de dez de janeiro do presente ano, em cumprimento da qual prossegui, e no primeiro do corrente sai no Campo do Meio, e a 17 cheguei ao Povo de São Borja a apresentar-se-me o Comandante da Província, e regressei como ordena a mesma Junta, exigindo primeiro o necessário para o dito meu regresso, assim o tenho cumprido e pelo Comandante desta Província estou municiado de um machado, duas libras de pólvora e chumbo competente, e ordem para se me entregar doze reses de corte que é o que lhe depreguei.

Na minha derrota só encontrei dois rios grandes Iguaçu e Uruguay  e três rios pequenos que dois passei a váu, e um em jangada, três matos o primeiro de 8  e meia léguas que acompanha o Iguaçu o segundo de 8 e o terceiro de três e meia que acompanha o Uruguay foi medida do abarrancamento e Povoação de Atalaia a sair à estrada do dito Campo do Meio 55/2 léguas, e calculando o atual atalho de 60 léguas para cima. 

Deus Guarde a V. Exa. muitos anos. Povo de São Luis 

27 de abril de 1816.

De V. Exa. e Exma Sr. Marquês de Alegrete e mais pronto súdito.

Athanagildo Pinto Martins (13)

A comunicação que o comandante do quartel de São Borja, Francisco das Chagas Santos fez ao marquês de Alegrete, a 30 de maio de 1816, após receber Atanagildo e seus comandados e tomar-lhe o depoimento, é bem mais satisfatória. Nela a descrição do percurso realizado dos Campos de Guarapuava até São Borja pelo alferes, vem mais detalhado, dando para concluir que o rio Uru­guai foi transposto por um novo passo e que foram desviados os Campos de Curitibanos e Lages: 

Ilmº. Exmº. Sr.

A 17 do mês passado apresentou-se-me neste Povo o Alferes de Milícia da Capitania de São Paulo Athanagildo Pinto Martins, e me disse que ele fora encarregado de procurar trânsito para uma estrada, desde o acampamento ou Povoação d'Atalaia (no extremo setentrional dos Campos de Guarapuava, e 115 léguas de caminho distante da Cidade de São Paulo para este País, conforme, a ordem, que recebera, e vai inclusa por cópia, do tenente-coronel Diogo Pinto d'Azevedo Portugal, Comandante em Chefe da Real Expedição, e conquista de Guarapuava; e que felizmente descobrira bom trânsito para a dita estrada na forma seguinte:

Partindo o mesmo Alferes do sobredito Acampamento da escolta, que consta da lista inclusa, seguiu para o sudoeste por campo limpo 16 léguas até o Mato do Rio Iguaçú, ou Grande da Curitiba; cujo mato atravessou na mesma direção sudoeste, por espaço de 2 1/2 léguas, até chegar ao dito Iguaçú, que passou em um vau pedregoso; desde o qual prosseguiu para o leste costeando o mesmo rio a distância de  6 léguas, por mato limpo, a ganhar um campo por onde transitou 4 1/2 léguas até o arroio Lajeado denominado Chopy, de cujo bosque desviando-se andou para leste 5 léguas em campo, pelo qual seguiu mais 5 1/2 léguas no rumo de Sul até o Arroio Japecó, que passou de vau. (Esse arroio é o mesmo que eu reconheci com o nome de Rio Caudaloso, na Expedição da Demarcação de Limites, e desagua no Uruguay) acima da barra do Peperi-Guaçú 20 léguas). Deste passo de vau andou 1 1/2 légua no rumo de sul por campo, até um bosque limpo, que atravessou por espaço de 2 1/2 léguas em direção de Sueste; depois seguindo no rumo de sul 3 1/2 léguas pelo mesmo mato, encontrou um arroio (semelhante ao Japecó) que corre a Oeste para o Uruguay. Passou e canoa este arroio, que depois observou ter um bom passado de vau, e seguindo para o Sul 2 léguas por mato, saiu em Campo, pelo qual transitou no mesmo rumo 2 3/4 léguas, e chegou ao Uruguay, onde fez cano em que passou este rio e prosseguindo no rumo de Sul por mato limpo duas léguas, encontrou um Arroio grande, que passou em Jangada e, corre para o Uruguay; continuando na mesma direção de Sul, por mato, no espaço de 1 1/2 légua, saiu ao mesmo rumo, chegou à Estrada geral, entre esta Capitania e a de São Paulo; por cuja estrada tendo andado para Oeste 4 léguas, ou pouco mais, saiu nos Campos Setentrionais, e Orientais desta Província de Missões.

Se todo o terreno, assim dos campos, como dos Bosques por onde transitou nesta viagem o referido Alferes, é plano, e enxuto como ele diz, segue-se, que podemos ter uma boa estrada, e de muita utilidade entre esta Capitania, e a de São Paulo, não só porque admite o transporte de carreta, visto que não tem serras, nem pântanos, como por ter menos 60 ou 70 léguas, que o antigo, ou o atual caminho.

Não deixo de notar, e supor alguma equivocação no mesmo alferes a respeito da pequena distância de 4 1/2 léguas, que ele dá entre o Uruguay e a Estrada Geral do Campo do Meio, quando este espaço representa a Carta Corográfica desta Capitania.

O mencionado Alferes me pediu auxílio para o seu regresso, que o fornecesse com 2 libras de Pólvora, 8 libras de chumbo, e 12 reses de gado vacum, o que prontamente lhe mandei entregar, e partiu deste Povo a 23 do sobredito mês.

Deus guarde V. Exª muitos anos como desejo. 

Quartel de São Borja, 30 de maio de 1816 de V. Exª. Ilmº e Exmº Sr. Marquês d"Alegrete - O mais obediente Súdito Francisco das Chagas Santos. (14)

Somente esses dois relatórios com mais propriedade descre­vem o percurso do alferes Atanagildo e sua escolta. Outras tenta­tivas de o reconstituir, feitas sem o respaldo de . documentação oficial, trouxeram mais confusão que esclarecimento.

 

Dedicaram-se a esse tema vários autores do Rio Grande do Sul, porquê, além de palmilhar caminhos que atravessam a região serrana desse Estado, na tentativa de facilitar a comunicação e o comércio com a Capitania e depois Província de São Paulo, Atanagildo Pinto Martins, com seu irmão Rodrigo Felix Martins e vá­rios familiares seus, são incluídos entre os primeiros povoado­res dessa região.

 

Assim se expressa MOACYR DOMINGUES sobre a "famosa expedi­ção de Atanagildo Pinto Martins", título de um dos seus artigos sobre antigos caminhos das regiões serrana e missioneira:

Há um capitulo de nossa História regional, que não diz respeito propriamente a Cruz Alta, mas que indiretamente nos interessa e sobre o qual tem havido alguma controvérsia: a famosa expedição de Atanagildo Pinto Martins em busca de uma nova estrada para comunicar o território do Paraná - então pertencente à Província de São Paulo - ao Rio Grande do Sul, através de Santa Catarina, já autônoma. (15).

Outros estudos seus alertam para o fato de que a cha­mada "Estrada das Missões", que saindo dos Campos de Vacaria pas­sava pelas futuras Passo Fundo e Cruz Alta até chegar em São Bor­ja das Missões, já era conhecida desde fins do 'século XVIII, oriunda possivelmente de antigas trilhas indígenas. Seus estudos são citados por SOARES, que, como Prudêncio ROCHA, observam que nenhum caminho novo abriu Atanagildo Pinto Martins nessa região serrana e sim em território catarinense. (16).

 

Hemetério José Velloso da SILVEIRA dá sua versão sobre a abertura da vereda das Missões, na sua conhecida obra sobre as Missões Orientais do Uruguai, revelando que se baseou num manuscrito que lhe foi entregue em Porto Alegre, pelo major João Cipriano da Rocha Loures:

Em 1817 foi removido o capitão general dom dom Luis da Cunha Menezes, marquês de Alegrete, do governo do Rio Grande do Sul para o de São Paulo, onde manifestou desejos de ligar as duas capitanias, por um estrada, que atravessando os sertões limítrofes, fosse sair no território de Missões.

Não chegou a executar seu plano, porque, durante dois anos incompletos desse seu novo governo, o território das Missões continuava (como desde o tempo em que ainda governava o Rio Grande do Sul, alarmado com as invasões de Artigas (José e seu filho André), porém, terminada essa situação dificílima, o novo governador de São Paulo, dom Francisco Mascarenhas, conde de Palma, mandou, em fins do ano de 1819 chamar à sua presença o Capitão de Milícias Antônio  da Rocha Loires (pai do autor de manuscrito), nomeou-o comandante de uma força de sessenta exploradores, indo como subalterno o alferes Athanagildo Pinto Martins.

Partindo de Guarapuava, penetrou a força expedicionária, em um grande sertão, abrindo picadas vadeou rio Iguaçú, abaixo da foz do Jordão, saíram nos campos de Palmas, de onde foram a Lajes, depois aos Curitibanos, transpondo outro sertão, que fiou sendo (ou já era) chamado Mato Português, cortaram pelo campo do Meio e, ao fim de seis léguas, esbarraram no sertão, que foi denominado Mato Castelhano. Aí abriram um pique de quatro léguas, saindo nos campos desertos de Passo Fundo, onde vagueavam bugres, os quais, ou não os avistaram, ou, se os viram, deixara-nos, prosseguir temendo-lhes as armas de fogo mais mortíferas que as suas setas.

Caminhando pela extensa coxilha, onde manam os tributários caudalosos do Jacuí e do Uruguai, passaram pela despovoada Cruz alta e dando volta  por Tupanciretã, chegaram, com mais 56 léguas de marcha, ao apetecido termo da viagem, isto é, ao povo de São Borja, a nova Capital das Missões.

Apresentaram-se ao comandante geral Francisco das Chagas Santos, que acolheu benignamente os expedicionários, encarregando o chefe Athanagildo, de agradecer ao governador de São Paulo, tão proveitosa exploração que, por seu turno, levaria ao conhecimento do governo em Porto Alegre. 

Deu-lhes para o regresso alguns recursos e instruções, bem como papel para lançarem suas notas e uma planta, embora tosca, do terreno a percorrer.

Se houvesse mandado (e podia fazê-lo) uma escolta mais numerosa a acompanhar a paulista, até os limites das duas capitanias, outro e mais proveito teria sido o fim dessa expedição, que quase ficou ignorada. (17).

A descoberta da lista que vem citada na correspondência do comandante Francisco de Chagas Santos, com os nomes dos homens que compunham a escolta de Atanagildo, redigida e assinada por18este, de Santo Agostinho, a 10 de abril de 1816 (18), esclareceu que a abertura desse caminho foi realizada por doze homens e Atanagildo e não por sessenta exploradores, conforme escreve HEMETÉRIO DA SILVEIRA. Em 1817 o marquês de Alegrete ê governa­dor da capitania do Rio Grande, tendo deixado o governo de São Paulo em 1813.

 

A informação na qual se baseou^ SILVEIRA, também não foi ver­dadeira, quando atribuiu ao capitão de milícias Antônio da Rocha Loures a ordem que designou Atanagildo Pinto Martins para o co­mando da expedição. Sabe-se que foi Diogo Pinto, comandante de ambos, que a expediu, a mando do conde de Palma e que Ata­nagildo não era subalterno do tenente Rocha Loures. O fato acon­teceu no primeiro semestre do ano de 1816 e não em 1819 e o mar­quês de Alegrete não mais voltou a governar São Paulo, depois de1813.

 

Também errou o autor, quando escreveu que a força expedi­cionária, saindo dos campos de Palmas, passou por Lages e de­pois por Curitibanos; essas duas localidades foram desviadas por Atanagildo e seus comandados, seu principal mérito, por te­rem assim aberto um percurso inédito por Campos Novos.

 

Ao divulgar a versão do manuscrito do filho de Antônio Ro­cha Loures, João Cipriano, SILVEIRA assumiu sua veracidade não tendo como comprovar o contrário, pois não fizera uma pesquisa 242pessoal em outros documentos.

 

Dos demais autores do Rio Grande do Sul que foram consul­tados, todos se baseiam no manuscrito divulgado por Hemetério DA SILVEIRA. (19).

Pode-se concluir pelos documentos já citados, como ocorre­ram os fatos. Em novembro de 1815, o alferes Atanagildo Pinto Martins explorava o rio Chapecó, a mando do seu comandante, Dio­go Pinto, quando recebeu a ordem para prosseguir e abrir novo caminho para as Missões. Em território paranaense já havia sido realizado em 1811 o levantamento dos rios Pinhão e Jordão, na mar­gem direita do rio Iguaçu, pelo tenente Manoel Soares do Vale.Em1815 este explorou, na margem esquerda o rio Iguaçu, o rio Chopim, seu afluente. Essa região era conhecida de Atanagildo quan­do iniciou o reconhecimento do rio Chapecó, assim como os Campos de Lages, em cuja vila residiam parentes seus. Conforme relatório do comandante Francisco das Chagas Santos, Atanagildo e sua escolta atravessaram os rios Iguaçu, Chapecó e mais um, "seme­lhante ao Japecó", que seria o rio do Peixe. Adiante transitara por campos, atualmente a região de Campos Novos, tendo transposto o rio Uruguai por um novo passo, citado por Fidelis Dalcin BARBO­SA como sendo o passo do Pontão, no atual município de Barracão(RS), onde em 1849 havia um barracão que abrigava os soldados en­carregados da fiscalização e da cobrança de impostos do novo pas­so. (20).

Esse passo e a abertura dos novos caminhos que, atravessando os Campos Novos, atingiam a nordeste a antiga Estrada das Tro­pas, desviando Lages e Curitibanos, vão originar a estrada "tão transitada" a qual se refere o sargento-mor reformado Atanagil­do Pinto Martins no seu depoimento para a Câmara de Cruz Alta, a 29 de setembro de 1847:

Em cumprimento da determinação do Exmo. Sr. Presidente da Província e da Câmara Municipal, passo a relatar as informações acerca da estrada para a Província de são Paulo, pelo Campos Novos, pela seguinte forma:

Já no ano de 1815 por ordem do governo da Província de São Paulo, percorri estes vastos sertões transpondo dos campos de Guarapuava aos de Palmas e passando o rio Pelotas, sai nos campos de Vacaria. No princípio do ano de 1840 segui desta com uma força leal cruz-altense e, com ela, fomos derrotar as forças rebeldes nos curitibanos, e tendo além desta, informação dos tropeiros que têm transitado em dita estrada, para melhor informar V. S.

Tudo quanto alegam os peticionários a respeito das vantagens de dita estrada é vero e só a ignorância em que tem estado o Governo de suas vantagens se pode atribuir a não estar ela já franca e aberta para o comércio. 

A estrada de que se trata passa pela localidade muito superior à antiga pela vila de Lajes, e evita as pedregosas que a constroem e todas as vias apontadas que, com suas frequentes inundações, impedem o transito, para passar o rio Pelotas abaixo das confluências de todos eles. Tem, além de tudo isso, a grande vantagem de encurtar, pelo menos, seis dias de viagem. Já esta transitável e a maior parte das comitivas que vem da Províncias de São Paulo, seguem por ela; já algumas tropas tem por ela saído com permissão do administrador do registro de Santa Vitória.

Três obstáculos, contudo, tem havido e tem ocasionado algum embaraço no transito dela, os quais são:

a passagem do rio Forquilha, nos campos de Vacaria, que já é caudaloso; a passagem da mata que borda o rio Pelotas e a passagem do tio Marombas. O primeiro se evita mudando a estrada 

 braças mais ou menos do passo atual que já dá como transito até para os carros e mesmo com facilidade se pode fazer ponte no dito rio. O segundo se evita, abrindo a estrada de uma densa mata visto que a única dificuldade que apresenta é a descida áspera e íngreme, porém curta do lado de aquém e que com algum benefício já dará cômodo trânsito e, do lado do além, seguindo com a estrada mais para o lado direito do trilho atual, oferece localidade para uma boa estrada. O terceiro já consta que desapareceu com um novo pique que abriram nos Campos Novos, a sair no Campo da Ilha já quase na estrada da mata, a qual não só encurtou de mais um dia de viagem, como evitou passar-se duas vezes no rio Marombas, como acontecia pelo pique que primeiro abriram.

O fato que torna evidente as vantagens dessa estrada sobre a antiga é o fato de ser ela já tão transitada, apesar de nenhum benefício ter recebido da indústria humana e, sendo ela aberta convenientemente, todo o comércio desta província para a de São Paulo, se fará por lá, com grande vantagem, não sóna diminuição da despesa, nos dias de viagem que encurta, como em perda de animais que sempre ocorre na estrada atual.

Creio, portanto, que mais facilitará esse comércio a mudança do registro de Santa Vitória, para o passo do Pontão, ficando estabelecida uma agencia visto ser inadmissível a opinião do Ilmo. Sr. Administrador da Fazenda Provincial de obstruir a inutilizar a estrada antiga, terá sempre de se fazer por ela o comércio desta província para a Vila de Lajes e ser por onde os habitantes daquele município vão para a cidade de Poeto alegre, se abastecerem dos gêneros de mar fora, conservando-se ali agência se não pode temer que tenha lugar o contrabando na passagem dos animais. E o que me cumpre informar a respeito e rogo a V. Sa. de fazer tido presente à Câmara.

Deus guarde a V. Sa. Cruz alta, 21 de setembro de 1847.

Ilmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal desta Vila,

Atanagildo Pinto Martins. (21).

Confirmando o que declarou Atanagildo, Hemetério SILVEI­RA escreveu que ele "... saiu a tomar parte na campanha da revo­lução Farroupilha e foi um dos mais bravos na célebre batalha de Curitibanos, onde as forças capitaneadas por Teixeira e Garibal­di, foram derrotadas pelas brigadas do coronel Mello e Albuquerque". (22). As afirmações de Atanagildo foram confirmadas, quan­do, diante do declínio do passo de Santa Vitória, foi criada no Pontão uma coletoria, "... responsável por grandes índices de ar­recadação da Província do R.S. no meio do século..." que deixou o primeiro deserto. (23). Em 4 de março de 1848 foi comunicado, pelo vice-presidente da Província do Rio Grande do Sul, em seu relató­rio ã Assembleia Legislativa, a remoção do Passo de Santa Vitória para o Pontão, "... por onde se dirige a estrada que de Campos Novos segue para a Província de São Paulo, estrada esta mais tran­sitada, por ser melhor do que a outra de Santa Vitória.... (24). Fo­ra concretizado o vaticínio de Atanagildo, quando expôs que mais lucraria . o comércio se o Registro mudasse para o Pontão.

0 "Mapa dos Campos de Palmas e territórios contíguos" (25), traçado por Tito Alves de Brito, em 1843, ao tempo desses acontecimentos, mostra cora clareza a antiga Estrada das Mis­sões, que saindo do Registro Santa Vitória, inflete para o oeste, abandonando a Estrada do Viamão. Passando pelo Mato Português, pelo Campo do Meio e pelo Mato Castelhano, chega à vila de Cruz Alta, atual Planalto Médio do Rio Grande do sul. Atinge depois "S. Francisco de Borja" (São Borja)pelos povos das Missões, sem passar por Tupanciretã, localizada para o sul.

 

0 mapa em questão revela um caminho que saindo da Estrada das Missões entre o Mato Português e Vacaria, diri­ge-se para o norte, atravessando o rio Pelotas por um passo que Atanagildo denominou de Pontão na sua informação para os camaristas de Cruz Alta. Ele referiu-se também a uma es­trada que saindo do Pontão, atravessava Campos Novos até chegar por dois atalhos distintos aos Campos dos • Curitiba­nos. No mapa, essa estrada partindo daqueles campos para o nordeste, alcança a leste a Estrada das Tropas que vem de Lages, por esses dois caminhos..0 que passa pelo Guarda-mor, realmente evita as duas travessias do rio Marombas, conforme relata Atanagildo.

 

Apesar da omissão ou desconhecimento da região loca­lizada a leste, é assinalado no mapa em questão o caminho que parte de Lages até a Freguesia de São José, próxima à ilha de Santa Catarina. Também são destacados o caminho do Porto da União até os campos de Palmas e a antiga estrada dos Campos Ge­rais até Guarapuava, transpondo a serra de Boa : Esperança ,aberta por Diogo Pinto em 1810. Ê curioso notar a denominação de Goio-En (antigo nome do rio Uruguai) para o atual rio do Peixe em Santa Catarina.

Foram as explorações que Atanagildo Pinto Martins fez em 1815, na região do rio Chapecó e a abertura da vereda das Mis­sões, em 1816, quando descobriu os Campos Novos, que permitiramposteriormente novos roteiros para o tropeirismo e o povoamentodessas regiões.

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MAPA DOS CAMPOS DE PALMAS E TERRITORIOS CONTÍGUOS.

Fonte: AHRS, Mapoteca, Mapa 35, Porto Alegre, RS (reconstitui­ção: desenho de C.V.Roderjan),

Fonte: ROSELYS VELLOZO RODERJANA.

Excerto da Dissertação: "FORMAÇAO DE COMUNIDADES CAMPEIRAS NOS PLANALTOS PARANAENSES E SUA EXPANSÃO PARA 0 SUL SECULOS XVI A XIX", FLORIANÓPOLIS, 1989.

DISPONÍVEL EM: https://core.ac.uk/reader/30391005

NOTAS DO TEXTO:

1, OS fatos aqui assinalados foram tratados no Capítulo VI, p. 173-5, ^ deste trabalho.

2. FELIX, Loiva Otero. Coronelismo e Borgismo e cooptação política. Porto Alegre, Mercado Aberto Ltda., 1987, p. 85-6 . Ver Figura 21.

3. VIANNA, Oliveira. Populações meridionais do Brasil. 3.ed. Belo Horizonte, Itatiaia, 1987, v.2, p. 34.

4. VER Capítulo VII, p. 199 deste trabalho. "Belém" ê a atual cidade paranaense de Guarapuava.

5, VER Capítulo VII, p. 193, deste trabalho. Ver neste Capítulo, p.256-60.

6. VER Figura 16.

7. FELIX, Coronelismo e Borgismo, p. 85-6.

8. DADA a sua importância para a história regional do Planalto Médio do Rio Grande do Sul, esse episódio vem neste trabalho tratado detalhadamen­te, baseado em documentos encontrados no Arquivo Histórico do Rio Grande do Sul (AHRS), ate agora não estudados. A "Vereda das Missões" ou "vereda para as Missões" e citada por FRANCO (Arthur Martins FRANCO. Diogo Pinto e a Con­quista de Guarapuava, Curitiba. Tip. João Haupt e Cia., 1943, p. 174-7) e MACEDO (Francisco Ribeiro de Azevedo MACEDO, Conquista pacifica de Guarapuava, Curitiba, E. Serpa, 1951. p. 185).

9. CORRESPONDÊNCIA, Diogo Pinto a Atanagildo Pinto Martins. Povoação de Atalaia, 10 de janeiro de 1816. In: AHRS, Autoridades Militares, 1816.Essa Ordem e o posterior roteiro da abertura de vereda das Missões (ver nes­te Capitulo, p. 236-8), atestam que Atanagildo Pinto Martins explorou os campos mais tarde chamados de Campos de Palmas.

10. CORRESPONDÊNCIA. Atanagildo Pinto Martins ao marques de Alegrete. Povo de São Luis, 27 de abril de 1816. In: AHRS. Autoridades militares,1816. 11CORRESPONDÊNCIA, Atanagildo a Alegrete, 27 de abril de 1816.

12. FRANCO, Diogo Pinto, p. 174;.MACEDO, Conquista, p. 185,

13. CORRESPONDÊNCIA. Atanagildo a Alegrete, 27 de abril de 1816.

14. CORRESPONDÊNCIA. Francisco das Chagas Santos ao marques de Alegre­te. são Borja, 30 de maio de 1816. In: AHRS, Autoridades Militares, 1816.

15. DOMINGUES, Moacyr. Antigas famílias cruzaltenses. ' Diário Serrano. Cruz Alta, 25 de abril de 1972

16. SOARES, Mozart Pereira. Santo Antônio da Palmeira. Porto Alegre, Edit. Bels, 1974, p.101; ROCHA, Prudêncio. A historia de Cruz Alta. Cruz Alta, Grafica Mercúrio Ltda, 1980, p.36; DOMINGUES, Antigas famílias, 1972- 73.

17. SILVEIRA, Hèmetério J. Velloso da. As Missões Orientais e seus an­tigos domínios. Porto Alegre, Erus, 1979, p.338-9.Os grifos são nossos; assinalam os erros do texto

18. SOARES, Santo Antônio, p. 332. In: AHRS, Autoridades militares.1816.

19. SPERRY, José N. Vieira. Raízes e retalhos de Nonoai. Passo Fundo, Edit. P. Berthier, 1985, p. 43; CAFRUNI, Jorge E. Passo Fundo das Missões. Porto Alegre, Graf. Edit. a Nação, 1966. p. 628, 631-3;  BARBOSA, Fidelis Dal­cin. Vacaria dos Pinhais. Porto Alegre, EST, 1978. p. 17-8. ____. Nova História de Lagoa Vermelha. Porto Alegre, ESI, 1981, p. 126.

20. BARBOSA, Fidelis Dalcin. Vacaria dos Pinhais. Porto Alegre, Grafisul, 1978, p. 17-8

21. ROCHA, A história, p. 35-7.

22. SILVEIRA, As Missões, p. 351.

23. BARROSO, Vera Lucia Maciel. Santo Antônio da Patrulha; vínculo, expan­são, isolamento (1803-1889). Porto Alegre, PUCRS, 1979, dissertação de mestrado, mimeografada, p. 138-9.

24. BARBOSA, Fidelis Dalcin. Nova História de Lagoa Vermelha. Porto Ale­gre, EST, 1981, p. 129